marshall
30/12/2007, 4:30:23
Menos pessoas ainda vão ler este. A falta de parágrafos e o tamanho assustará vários. Não terminei ainda, de qualquer maneira.
A fome e a guerra estão sentadas na mesa. Na minha mesa. Conversando comigo. Falando comigo. Aparentemente, são bem sãs, mais do que eu esperaria. Uma mesa de madeira que pode muito bem ser dos antigos salões do velho oeste e eu nunca saberei. Eu já estou um pouco embriagado, nem lembro quando sentaram à mesa. Parecem esperar mais alguém. Ainda não me incluiram na conversa, falam algo sobre amor. Minha cerveja gelada me preocupa mais do que o amor. Tateio meu bolso em busca do meu Marlboro vermelho que me faz tossir todas as noites. Pego um e levo a boca. A fome me oferece um isqueiro que logo aceito. O copo com álcool na mesa é dela. Ela bebe álcool. Puro. Bem, queria ter esse estômago. É um sábado chuvoso e eu vim sozinho para este bar derrubado. Certamente é um dia que estou odiando e não estou muito tranquilo em beber com a guerra. Logo quando ela tinha sentado, um homem esbarrou com ela e ela começou uma briga. Mas isso nem me importa, só não quero ser incomodado, quero ficar calado, morrendo a cada tragada. A guerra começa a falar que ama a paz, mas ela só foge dela. Ela diz sobrevoar as grandes avenidas, por cimas das árvores, por dentro dos metrôs atrás dela. Tem sonhos e mais sonhos com ela, mas ela simplesmente o ignora. Diz sofrer de dores de cabeça toda noite por causa disso. Já passou por incontáveis cidades atrás dela tentando descobrir o que ela queria que fosse feito para a aceitar. A fome irrompe na conversa para dizer que isso é besteira, que a guerra não devia fazer isso. Tem tanta coisa por aí, a paz não é grande coisa - diz a fome. A guerra se sente incomodada com isso, noto quando ela aperta seu copo de vinho com força. Porquê persegue o desejo incessantemente então ? - diz a guerra quase que cerrando os dentes. É diferente, não compare - a fome ri. Você persegue a paz por todos os lugares, por todas as portas, entre esquinas e botecos! Nesse exato momento, você acha que eu não percebi ? Toda vez que a porta abre você quer ver se ela entrou. Eu não sou burro! - a fome já está realmente excitada com a discussão, falando alto e gesticulando ridicularmente. Pego outro cigarro, ainda sem ligar para a discussão. A fome novamente oferece o isqueiro, dessa vez deixando ele na mesa para quando eu precisar. As acusações mútuas começam novamente. A guerra começa a proferir de forma calma, como se soubesse que aquilo é verdade. Fome, o seu problema é que você já se conformou, já se colocou no próprio caminho de auto-destruição. Você não era assim antes, não bebia álcool puro, não estava tão desligada das coisas, nunca foi assim. Agora você está criando sua própria rodovia para o inferno e parece se orgulhar disso. Eu só não desisti ainda. Você está cantando sua perda. É a velha história: Menino conhece menina, menino conquista garota, menino perde garota. É sempre assim. Engula seu álcool e fume seu Camel, que qualquer dia desses você vai acordar em pequenos pedaços com o corpo parando de funcionar. Você olha pra si mesma no espelho com pena, está magra, dá pra ver um buraco na sua alma, está estampado na sua cara. Você não tem vontade de viver, mas também não tem vontade de morrer. Você está deixando tudo vir abaixo! A fome já estava de cabeça baixa há muito tempo, já tinha acendido outro cigarro durante o tempo que guerra falou. Na falta de cinzeiro, colocava tudo em cima da mesa, que agora já parecia que alguém tinha sido cremado em cima. Quando levantou a cabeça novamente, não precisou falar nada, sua cara revelava a idéia de que a guerra estava certa. Em sua arrogância, não podia fazer nada, estavam as duas no mesmo buraco entupido de merda. Eram pessoas que conheciam outras pessoas, conquistavam elas, depois perdiam elas. Todas iam embora, viravam às costas e dizem que elas estavam agora livres. A fome, depois de tomar o copo de álcool inteiro, enfim falou: - É engraçado, dizem que estou livre, mas eu não lembro de ter estado preso em momento nenhum. Eu gritei por desejo e o desejo gritou por liberdade e foi embora. Como é que esperam que eu simplesmente siga em frente ? Este mundo está se afogando nas próprias mágoas e eu não me importo com nada a não ser eu e ele. Temporadas passei sozinha até que ele veio e tocou meus lábios com seus dedos, quase me queimando de êxtase. Hoje, tudo está mudado. Eu estava em casa, estava tudo bem. Quando você abre os olhos, descobre que tudo mudou. Que a casa, antes branca, parece agora só um tom de cinza. Antes você esperava o dia vir cheio de sol para iluminar seus passos lentos pela cidade, agora você quer que chova. Espera que ela vá lavar toda a sua tristeza para dentro do esgoto. Mas algumas coisas na vida não mudam, fica aquele cheiro de madeira velha no ar quando você percebe que tudo mudou. O desejo voou para longe em algum avião e a chuva ainda não caiu aqui. Está quente como um inferno aqui e eu quero que a chuva me molhe o tempo todo. Não quero que tons de cinza dominem mais meu dia, mas sabe quando você achou que eram os escolhidos ? Mas que merda hein ? A guerra finalmente interrompeu ela: - Eu sei, fome… Eu sei… No começo eu quis fingir que nada tinha acontecido, que aquilo ia passar. Ficava estagnada por algum tempo, mas logo depois me levantava. Com um aperto no peito, é bem verdade, mas tentava ir em frente. Checava o relógio e sempre procurava algo pra fazer. Tentava esquecer que a paz algum dia morou ali comigo, que alguma dividiu o mesmo quarto, que já tínhamos brigado na cozinha. Quando besteiras cruzavam minha mente, eu limpava o banheiro. Quando queria chorar, eu fazia um café sofisticado para comer sozinha. Quando comia sozinha, eu lembrava de todos os planos que queria fazer. Foi aí quando percebi que esses planos foram planejados com ela e faltava uma coisa essencial. Faltava ela sentar aqui do meu lado para terminar de planejar aquilo tudo. Foi nessa hora que eu simplesmente chorei em cima do meu croissant de queijo. Tinha perdido a fé. Era diferente sentir ali sozinha e eu demorei pra aceitar isso. Eu estava bloqueando tudo. Vivia automática, sem acreditar mais em mágica. Não mudou muita coisa, eu não acredito mais em magia. A vida é tão normal, ainda mais quando a pessoa certa saiu pela porta. As coisas nunca mais serão as mesmas. Eu ainda lembro o que eu disse quando a paz disse que queria ficar comigo. Eu só consegui murmurar: - Porquê você me fez esperar tanto tempo ? - E a abraçei com tanta força que tenho a impressão que nunca soltei, eu nunca soltei, aquele abraço nunca terminou, ainda estou segurando ela com força. Mas minha força não foi capaz de fazer com que ela não fosse embora. Ela decidiu ir e eu mal posso lembrar porquê brigamos. Porquê ela perdeu a paixão por mim. Todo dia eu tento lembrar os problemas e só vejo problemas que não terminariam uma relação. Então eu comecei a desbotar, desbotei para um azul acinzentado. Esse sou eu agora, azul acinzentado. Imagino histórias antes de dormir, imagino se algum anjo veio falando baixinho no ouvido dela da áspera liberdade. E é um tempo longo demais, sabe ? - Agora caia lágrimas dos olhos sem vida da guerra - É um tempo longo demais para esperar, sabe ? Nunca é um tempo longo demais. Eu rio sozinha, choro sozinha, como sozinha. Minha vida não tem nada de errado. Mas eu estou cega no paraíso, eu estou sozinha no paraíso. Qual a vantagem de estar no paraíso, com uma vida perfeitamente desejável por muita gente se você está sozinho ? Qual o sentido ? Qual o sentido de não ter respostas para tantas perguntas ? De não ter um abraço quando a dor dói e não quer mais largar. Qual a vida em passar a chave na porta a noite se quando entrar você não poderá dizer: - Cheguei! - sem pensarem que você ficou doida ? Fome, nunca é um tempo longo demais… - Acendi outro cigarro, ainda só olhando. A fome escutou pacientemente e também já tinha soltado algumas lágrimas, não em compaixão, não por pena, mas por si mesma, sabia como a guerra estava. Guerra… - começou a fome - eu não vou dizer que vai passar, porquê não passa. Uma metade sua foi cortada e foi levada. E o corpo não sabe regenerar isso. O tempo passa e o tempo nos mata mais ainda. As pessoas dizem que o tempo cura. Mentira. O tempo mata, corrói e destrói. A sua esperança vai morrer com o tempo, você vai morrer junto nesse dia. A minha morreu há algum tempo. Nesse dia, eu deixei de existir, eu simplesmente desapareci. Não me reconheço mais como eu mesma. Nesse dia, algo apagou, deixou de existir e eu não fiz esforço algum por isso. Foi num sábado chuvoso, eu posso lembrar. Estava deitado, com meu coração no chão, o tempo estava frio. De alguma maneira eu soube que quando o sol aparecesse, eu não teria mais para onde correr. Começaria ali a minha não-existência. Hoje sou vampiro quando me olho no espelho. Não existo. Sou vítima quando saio por aí e sou vampiro quando me olho no espelho. Então, foi assim, o dia veio e ali já não existia mais a fome. Era outra pessoa, se é que ainda sou uma pessoa. Me levantei, tomei o café da manhã e comecei minha rota para o inferno. Não sou mais eu, não quero viver como outra pessoa. Não tenho coragem de ir embora, nem da cidade nem pra outro mundo. Então eu me detesto, é a única coisa que posso fazer. Me detestar, o dia todo, todo dia. Derramei lágrimas do desejo, eu sei e admito ter feito isso, mesmo sem ter sido por mal. E mesmo que eu viva mil anos, nunca mais poderei retornar estas lágrimas para aqueles olhos sonhadores… Eu ligo para ele todo dia, mas ele nunca me atende. Ainda deve estar doendo. Só que ele precisa saber que está doendo aqui também… Que eu estou no chão todo dia, que eu quero poder secar isso tudo, apagar isso tudo, recomeçar. Preciso gritar pra ele que eu não posso mais gritar, que eu não posso mais seguir em frente, com todos os planos que tínhamos. Com esse mundo indo de mal a pior, como você disse, mal posso esperar para cumprir meus planos com ele. Mas ele parece estar pelas ruas… pregando por dinheiro e atenção. E eu estou aqui, pregando por amor, amor, amor. Não conseguindo, estou me afogando dia após dia. Eu não sei mais o que fazer! - A fome agora chorava enquanto tentava pedir outro copo de álcool. Eu ainda estava na mesma, estava acendendo outro cigarro, já o décimo e alguma coisa desde que começaram a contar suas histórias sem me dar lá muita atenção a não ser nas horas que precisavam dramatizar o que falavam. Olhavam para mim como se eu precisasse fazer cara de que entendia. Eu pedi por um gim, um gim com tônica. Estava ficando cansado e angustiado. As duas falando ali e eu aqui em silêncio calado esperando a noite ser vencida pela promessa de outro dia ruim. Um gosto ruim na boca, eu conhecia aquele gosto. É o gosto de terminar a carteira de cigarro. A boca fica seca. Você tosse. Não ficaria surpreso se cuspisse sangue, como já fiz. Eu também tenho uma história assim, como elas tem. Estou na mesma situação. Todos estamos. Se não por amor, seria por dinheiro ou por atenção. Talvez ainda por sofrimento. Todos tem um vício, todos tem algo que não podem deixar passar, todos tem algo pelo qual se poderia sofrer até o dia passar. E ao contrário do que falam e aconselham, não há nada que você possa fazer. Estes devem ser os viciados em conselhos, que se não dão conselhos, que se não ajudam, se martirizam. Estou pedindo outro gim e ainda posso ouvir as duas lamentando tudo que passaram. A fome fala que ainda dança até o dia amanhecer lembrando dele, que não pode nunca deixar de dançar sem pensar nele. Quando a guerra vai falar, a fome se levanta e começa a dançar. Trêmula, afasta a cadeira, sem parecer ter certeza do que vai fazer ali. Lá fora, a chuva cai, enfim cai e promete não deixar vestígios. As nuvens cobrem os momentos que você nunca vai esquecer. E a fome dança. A fome dança como uma bailarina. Uma bailarina melancólica. A guerra não tem coragem de interromper. No rádio, uma velha canção sobre mudanças onde o cantor diz: - Tire o telefone do gancho e desapareça por um tempo. Está tudo bem, você pode perder um dia ou dois. Quando você vai entender que Viena espera por você ? - O copo de álcool numa mão e o cigarro no outro, você podia ver uma aura de melancolia saindo dela. Tinha uma faixa na cabeça, parecia uma criança a frente do seu tempo. Ela não sabia a letra da música, mas sussurrava a melodia. Todo mundo olhava para ela. Ela, de olhos fechados, estava em algum outro lugar naquela hora. Sentado em algum lugar com uma grama e um ar melhor. Imaginava uma vida sem telefone, pois não precisaria ligar para ele. Ele chegaria lá todo dia e abraçaria ela. Ela diria: - Eu esperei tanto. Tanto. Meu deus, eu esperei tanto. E o desejo abraçaria ela daquela maneira que você sente que aquele abraço não vai mais terminar. Que ali, ele começou e nunca mais vai acabar. Ela sorria pela metade. A música foi se esvaindo em seus segundos finais. Ela parou de dançar, o mundo voltou a girar. Ela deixou seu copo na mesa, olhou para mim e disse: - Eu não estou bem, está doendo. Não está melhor assim, é mais difícil todo dia. Já nem posso ouvir todos os idiotas dizendo que vai ficar tudo bem, que era melhor assim. - E saiu, até hoje não sei pra onde. Saiu. Deixou para trás toda a atenção que recebia quando estava dançando. A guerra havia ido ao banheiro, provavelmente chorar ou vomitar tudo que bebera. Eu fui comprar outro cigarro no balcão.
A fome e a guerra estão sentadas na mesa. Na minha mesa. Conversando comigo. Falando comigo. Aparentemente, são bem sãs, mais do que eu esperaria. Uma mesa de madeira que pode muito bem ser dos antigos salões do velho oeste e eu nunca saberei. Eu já estou um pouco embriagado, nem lembro quando sentaram à mesa. Parecem esperar mais alguém. Ainda não me incluiram na conversa, falam algo sobre amor. Minha cerveja gelada me preocupa mais do que o amor. Tateio meu bolso em busca do meu Marlboro vermelho que me faz tossir todas as noites. Pego um e levo a boca. A fome me oferece um isqueiro que logo aceito. O copo com álcool na mesa é dela. Ela bebe álcool. Puro. Bem, queria ter esse estômago. É um sábado chuvoso e eu vim sozinho para este bar derrubado. Certamente é um dia que estou odiando e não estou muito tranquilo em beber com a guerra. Logo quando ela tinha sentado, um homem esbarrou com ela e ela começou uma briga. Mas isso nem me importa, só não quero ser incomodado, quero ficar calado, morrendo a cada tragada. A guerra começa a falar que ama a paz, mas ela só foge dela. Ela diz sobrevoar as grandes avenidas, por cimas das árvores, por dentro dos metrôs atrás dela. Tem sonhos e mais sonhos com ela, mas ela simplesmente o ignora. Diz sofrer de dores de cabeça toda noite por causa disso. Já passou por incontáveis cidades atrás dela tentando descobrir o que ela queria que fosse feito para a aceitar. A fome irrompe na conversa para dizer que isso é besteira, que a guerra não devia fazer isso. Tem tanta coisa por aí, a paz não é grande coisa - diz a fome. A guerra se sente incomodada com isso, noto quando ela aperta seu copo de vinho com força. Porquê persegue o desejo incessantemente então ? - diz a guerra quase que cerrando os dentes. É diferente, não compare - a fome ri. Você persegue a paz por todos os lugares, por todas as portas, entre esquinas e botecos! Nesse exato momento, você acha que eu não percebi ? Toda vez que a porta abre você quer ver se ela entrou. Eu não sou burro! - a fome já está realmente excitada com a discussão, falando alto e gesticulando ridicularmente. Pego outro cigarro, ainda sem ligar para a discussão. A fome novamente oferece o isqueiro, dessa vez deixando ele na mesa para quando eu precisar. As acusações mútuas começam novamente. A guerra começa a proferir de forma calma, como se soubesse que aquilo é verdade. Fome, o seu problema é que você já se conformou, já se colocou no próprio caminho de auto-destruição. Você não era assim antes, não bebia álcool puro, não estava tão desligada das coisas, nunca foi assim. Agora você está criando sua própria rodovia para o inferno e parece se orgulhar disso. Eu só não desisti ainda. Você está cantando sua perda. É a velha história: Menino conhece menina, menino conquista garota, menino perde garota. É sempre assim. Engula seu álcool e fume seu Camel, que qualquer dia desses você vai acordar em pequenos pedaços com o corpo parando de funcionar. Você olha pra si mesma no espelho com pena, está magra, dá pra ver um buraco na sua alma, está estampado na sua cara. Você não tem vontade de viver, mas também não tem vontade de morrer. Você está deixando tudo vir abaixo! A fome já estava de cabeça baixa há muito tempo, já tinha acendido outro cigarro durante o tempo que guerra falou. Na falta de cinzeiro, colocava tudo em cima da mesa, que agora já parecia que alguém tinha sido cremado em cima. Quando levantou a cabeça novamente, não precisou falar nada, sua cara revelava a idéia de que a guerra estava certa. Em sua arrogância, não podia fazer nada, estavam as duas no mesmo buraco entupido de merda. Eram pessoas que conheciam outras pessoas, conquistavam elas, depois perdiam elas. Todas iam embora, viravam às costas e dizem que elas estavam agora livres. A fome, depois de tomar o copo de álcool inteiro, enfim falou: - É engraçado, dizem que estou livre, mas eu não lembro de ter estado preso em momento nenhum. Eu gritei por desejo e o desejo gritou por liberdade e foi embora. Como é que esperam que eu simplesmente siga em frente ? Este mundo está se afogando nas próprias mágoas e eu não me importo com nada a não ser eu e ele. Temporadas passei sozinha até que ele veio e tocou meus lábios com seus dedos, quase me queimando de êxtase. Hoje, tudo está mudado. Eu estava em casa, estava tudo bem. Quando você abre os olhos, descobre que tudo mudou. Que a casa, antes branca, parece agora só um tom de cinza. Antes você esperava o dia vir cheio de sol para iluminar seus passos lentos pela cidade, agora você quer que chova. Espera que ela vá lavar toda a sua tristeza para dentro do esgoto. Mas algumas coisas na vida não mudam, fica aquele cheiro de madeira velha no ar quando você percebe que tudo mudou. O desejo voou para longe em algum avião e a chuva ainda não caiu aqui. Está quente como um inferno aqui e eu quero que a chuva me molhe o tempo todo. Não quero que tons de cinza dominem mais meu dia, mas sabe quando você achou que eram os escolhidos ? Mas que merda hein ? A guerra finalmente interrompeu ela: - Eu sei, fome… Eu sei… No começo eu quis fingir que nada tinha acontecido, que aquilo ia passar. Ficava estagnada por algum tempo, mas logo depois me levantava. Com um aperto no peito, é bem verdade, mas tentava ir em frente. Checava o relógio e sempre procurava algo pra fazer. Tentava esquecer que a paz algum dia morou ali comigo, que alguma dividiu o mesmo quarto, que já tínhamos brigado na cozinha. Quando besteiras cruzavam minha mente, eu limpava o banheiro. Quando queria chorar, eu fazia um café sofisticado para comer sozinha. Quando comia sozinha, eu lembrava de todos os planos que queria fazer. Foi aí quando percebi que esses planos foram planejados com ela e faltava uma coisa essencial. Faltava ela sentar aqui do meu lado para terminar de planejar aquilo tudo. Foi nessa hora que eu simplesmente chorei em cima do meu croissant de queijo. Tinha perdido a fé. Era diferente sentir ali sozinha e eu demorei pra aceitar isso. Eu estava bloqueando tudo. Vivia automática, sem acreditar mais em mágica. Não mudou muita coisa, eu não acredito mais em magia. A vida é tão normal, ainda mais quando a pessoa certa saiu pela porta. As coisas nunca mais serão as mesmas. Eu ainda lembro o que eu disse quando a paz disse que queria ficar comigo. Eu só consegui murmurar: - Porquê você me fez esperar tanto tempo ? - E a abraçei com tanta força que tenho a impressão que nunca soltei, eu nunca soltei, aquele abraço nunca terminou, ainda estou segurando ela com força. Mas minha força não foi capaz de fazer com que ela não fosse embora. Ela decidiu ir e eu mal posso lembrar porquê brigamos. Porquê ela perdeu a paixão por mim. Todo dia eu tento lembrar os problemas e só vejo problemas que não terminariam uma relação. Então eu comecei a desbotar, desbotei para um azul acinzentado. Esse sou eu agora, azul acinzentado. Imagino histórias antes de dormir, imagino se algum anjo veio falando baixinho no ouvido dela da áspera liberdade. E é um tempo longo demais, sabe ? - Agora caia lágrimas dos olhos sem vida da guerra - É um tempo longo demais para esperar, sabe ? Nunca é um tempo longo demais. Eu rio sozinha, choro sozinha, como sozinha. Minha vida não tem nada de errado. Mas eu estou cega no paraíso, eu estou sozinha no paraíso. Qual a vantagem de estar no paraíso, com uma vida perfeitamente desejável por muita gente se você está sozinho ? Qual o sentido ? Qual o sentido de não ter respostas para tantas perguntas ? De não ter um abraço quando a dor dói e não quer mais largar. Qual a vida em passar a chave na porta a noite se quando entrar você não poderá dizer: - Cheguei! - sem pensarem que você ficou doida ? Fome, nunca é um tempo longo demais… - Acendi outro cigarro, ainda só olhando. A fome escutou pacientemente e também já tinha soltado algumas lágrimas, não em compaixão, não por pena, mas por si mesma, sabia como a guerra estava. Guerra… - começou a fome - eu não vou dizer que vai passar, porquê não passa. Uma metade sua foi cortada e foi levada. E o corpo não sabe regenerar isso. O tempo passa e o tempo nos mata mais ainda. As pessoas dizem que o tempo cura. Mentira. O tempo mata, corrói e destrói. A sua esperança vai morrer com o tempo, você vai morrer junto nesse dia. A minha morreu há algum tempo. Nesse dia, eu deixei de existir, eu simplesmente desapareci. Não me reconheço mais como eu mesma. Nesse dia, algo apagou, deixou de existir e eu não fiz esforço algum por isso. Foi num sábado chuvoso, eu posso lembrar. Estava deitado, com meu coração no chão, o tempo estava frio. De alguma maneira eu soube que quando o sol aparecesse, eu não teria mais para onde correr. Começaria ali a minha não-existência. Hoje sou vampiro quando me olho no espelho. Não existo. Sou vítima quando saio por aí e sou vampiro quando me olho no espelho. Então, foi assim, o dia veio e ali já não existia mais a fome. Era outra pessoa, se é que ainda sou uma pessoa. Me levantei, tomei o café da manhã e comecei minha rota para o inferno. Não sou mais eu, não quero viver como outra pessoa. Não tenho coragem de ir embora, nem da cidade nem pra outro mundo. Então eu me detesto, é a única coisa que posso fazer. Me detestar, o dia todo, todo dia. Derramei lágrimas do desejo, eu sei e admito ter feito isso, mesmo sem ter sido por mal. E mesmo que eu viva mil anos, nunca mais poderei retornar estas lágrimas para aqueles olhos sonhadores… Eu ligo para ele todo dia, mas ele nunca me atende. Ainda deve estar doendo. Só que ele precisa saber que está doendo aqui também… Que eu estou no chão todo dia, que eu quero poder secar isso tudo, apagar isso tudo, recomeçar. Preciso gritar pra ele que eu não posso mais gritar, que eu não posso mais seguir em frente, com todos os planos que tínhamos. Com esse mundo indo de mal a pior, como você disse, mal posso esperar para cumprir meus planos com ele. Mas ele parece estar pelas ruas… pregando por dinheiro e atenção. E eu estou aqui, pregando por amor, amor, amor. Não conseguindo, estou me afogando dia após dia. Eu não sei mais o que fazer! - A fome agora chorava enquanto tentava pedir outro copo de álcool. Eu ainda estava na mesma, estava acendendo outro cigarro, já o décimo e alguma coisa desde que começaram a contar suas histórias sem me dar lá muita atenção a não ser nas horas que precisavam dramatizar o que falavam. Olhavam para mim como se eu precisasse fazer cara de que entendia. Eu pedi por um gim, um gim com tônica. Estava ficando cansado e angustiado. As duas falando ali e eu aqui em silêncio calado esperando a noite ser vencida pela promessa de outro dia ruim. Um gosto ruim na boca, eu conhecia aquele gosto. É o gosto de terminar a carteira de cigarro. A boca fica seca. Você tosse. Não ficaria surpreso se cuspisse sangue, como já fiz. Eu também tenho uma história assim, como elas tem. Estou na mesma situação. Todos estamos. Se não por amor, seria por dinheiro ou por atenção. Talvez ainda por sofrimento. Todos tem um vício, todos tem algo que não podem deixar passar, todos tem algo pelo qual se poderia sofrer até o dia passar. E ao contrário do que falam e aconselham, não há nada que você possa fazer. Estes devem ser os viciados em conselhos, que se não dão conselhos, que se não ajudam, se martirizam. Estou pedindo outro gim e ainda posso ouvir as duas lamentando tudo que passaram. A fome fala que ainda dança até o dia amanhecer lembrando dele, que não pode nunca deixar de dançar sem pensar nele. Quando a guerra vai falar, a fome se levanta e começa a dançar. Trêmula, afasta a cadeira, sem parecer ter certeza do que vai fazer ali. Lá fora, a chuva cai, enfim cai e promete não deixar vestígios. As nuvens cobrem os momentos que você nunca vai esquecer. E a fome dança. A fome dança como uma bailarina. Uma bailarina melancólica. A guerra não tem coragem de interromper. No rádio, uma velha canção sobre mudanças onde o cantor diz: - Tire o telefone do gancho e desapareça por um tempo. Está tudo bem, você pode perder um dia ou dois. Quando você vai entender que Viena espera por você ? - O copo de álcool numa mão e o cigarro no outro, você podia ver uma aura de melancolia saindo dela. Tinha uma faixa na cabeça, parecia uma criança a frente do seu tempo. Ela não sabia a letra da música, mas sussurrava a melodia. Todo mundo olhava para ela. Ela, de olhos fechados, estava em algum outro lugar naquela hora. Sentado em algum lugar com uma grama e um ar melhor. Imaginava uma vida sem telefone, pois não precisaria ligar para ele. Ele chegaria lá todo dia e abraçaria ela. Ela diria: - Eu esperei tanto. Tanto. Meu deus, eu esperei tanto. E o desejo abraçaria ela daquela maneira que você sente que aquele abraço não vai mais terminar. Que ali, ele começou e nunca mais vai acabar. Ela sorria pela metade. A música foi se esvaindo em seus segundos finais. Ela parou de dançar, o mundo voltou a girar. Ela deixou seu copo na mesa, olhou para mim e disse: - Eu não estou bem, está doendo. Não está melhor assim, é mais difícil todo dia. Já nem posso ouvir todos os idiotas dizendo que vai ficar tudo bem, que era melhor assim. - E saiu, até hoje não sei pra onde. Saiu. Deixou para trás toda a atenção que recebia quando estava dançando. A guerra havia ido ao banheiro, provavelmente chorar ou vomitar tudo que bebera. Eu fui comprar outro cigarro no balcão.