Minoru-san
19/12/2007, 18:16:05
Aí vai outra... meio aleatória, mas tá valendo.
^^
Duplicidade - escrita por Minoru
Como silábicas amenas, o som apenas viaja no infinito, no universo, esperando para ser captado. Se ele carrega algo importante, se uma mensagem solta dança sobre seus alicerces, quem sabe? É apenas assim... apenas flutuando, levando consigo o que quer que seja, sem vivalma para presenciar, para opinar.
------------------------------
A família, há muito separada, finalmente se reunia. De muitos e espalhados lugares, os integrantes do conjunto desfrutavam de um soberbo jantar de Natal, onde todos comemoravam a recente vitória na Mega-Sena: 22 milhões de reais.
O bilhete sorteado fora comprado por acaso, pedido especialmente por um dos filhos menores. Claro que o pai não acreditava em sorte... as chances de se ganhar na Mega-Sena sozinho ultrapassam a casa de 1 para 1.000.000 . Mas o pequeno insistira tanto, e com tanta veemência, que o tutor, a custo, cedera. O que eram 3 reais pra uma criança? O pai entregara o bilhete para o filho, que guardou-o cuidadosamente no bolso.
... Na noite que antecedia o Natal, passava na Televisão o resultado dos sorteios para os números do grande ganhador. Ninguém assistia ao programa... ninguém havia comprado um bilhete de Mega-Sena para se dar ao trabalho de perder precioso tempo para ver um sortudo filho-da-mãe lucrar milhões. Ninguém, a não ser a criança. Prostrada, hipnotizada na frente do comunicador, ela dominava todas as suas atenções e direcionava para o objeto a sua frente, esperando. Não sabia o que significava, mas tinha certeza de que era algo bom... papai explicara mais ou menos.
...
- Papai, nosso número saiu na televisão.
O pequeno que puxava a camisa do pai tinha uma expressão satisfeita e feliz.
- O quê?
- Nosso número, pai... saiu na televisão.
O adulto, a princípio, descreu, como qualquer outro faria. Dirigiu-se para a televisão, a tempo de escutar o apresentador falar:
- ... nome do sortudo é Ataídes Filho da Cunha, que sozinho acaba de ganhar 22 milhões de reais!
O grito não saiu. Os ouvidos não acreditaram. As pernas tremeram. Virou-se rapidamente para a mesa e viu a mulher, ainda fazendo o orçamento do mês...
--------------------------
- UM BRINDE À SORTE!
Todos se levantaram, e ergueram suas taças e copos em direção ao alto, agradecendo silenciosamente à benção que tinham recebido.
A televisão jazia ligada, no momento em que mostrava a entrevista com Ataídes.
- ... morador da rua Liga Portuguesa, número 22, na cidade de Rio de Janeiro, esse feliz homem agora pode desfrutar de toda a mordomia que sonhara desde que nascera! 22 milhões de reais! - dizia o repórter.
- Foi meu filho que fez eu comprar o bilhete... se não fosse por ele, eu nem estaria aqui! - e a televisão emitiu o som da gostosa risada do ganhador da Mega-Sena.
Alguém na mesa ouviu a risada do parente no aparelho, e gritou para todos olharem.
Foi o pai que, sentado tranquilamente, falou primeiro:
- Finalmente, algo útil está passando na TV!
Bateu com a mão na maleta em que jaziam os 22 milhões de reais em dinheiro, na ponta da mesa. E todos riram, felizes.
===========================
Cuidadosamente, fazendo todo o silêncio que podia, ele encaixou o silenciador na ponta da pistola, girando-o até o final. Era um trabalho como qualquer outro que fizera: matar, levar o que podia e fugir, sem deixar vestígios.
Sim, sabia que era arriscado... mas o que não era, hoje em dia? Tanto sua vítima quanto ele próprio estavam à mercê de qualquer coisa, e era dever de cada um se proteger de tudo e de todos.
Sua mullher comia na sala com o filho, o resto do feijão do dia anterior.
- Feliz Natal... - falou ele, beijando a testa de sua esposa, e saiu porta afora.
Não sabia quem atacaria nesta noite, mas não podia voltar de mãos vazias para casa... não aguentava ver seu filho recém-nascido berrar de fome. Apenas andava, esperando alguma idéia da Divina Providência que pudesse sanar a sua dúvida. O vento da noite batia feroz em sua face, gelado, cortante. Ele levantou a gola e continuou o seu trajeto para lugar nenhum.
Passou em frente à uma loja de eletro-eletrônicos, que exibia várias televisões sintonizadas no mesmo canal.
- Nesta reportagem exclusiva de nossa emissora, convidamos neste dia o sortudo ganhador da Mega-Sena! Sozinho! Atual morador da rua Liga Portuguesa, número 22, na cidade de Rio de Janeiro, esse feliz homem agora pode desfrutar de toda a mordomia que sonhara desde que nascera! 22 milhões de reais! - dizia o repórter.
- Foi meu filho que fez eu comprar o bilhete... se não fosse por ele, eu nem estaria aqui! Hahahaha!
O homem na televisão ria, com suas faces rosadas, expressando extrema felicidade e contentamento. O homem na frente da vitrine apenas observava.
- Finalmente, algo útil está passando na TV! - pensou o armado.
Ajustou a pistola no cinto, ajeitou o chapéu na cabeça e recontinuou a andar. Já tinha um rumo.
De longe apenas se viam os olhos do homem com as golas levantadas, que emitiam um estranho brilho...
Minoru
^^
Duplicidade - escrita por Minoru
Como silábicas amenas, o som apenas viaja no infinito, no universo, esperando para ser captado. Se ele carrega algo importante, se uma mensagem solta dança sobre seus alicerces, quem sabe? É apenas assim... apenas flutuando, levando consigo o que quer que seja, sem vivalma para presenciar, para opinar.
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A família, há muito separada, finalmente se reunia. De muitos e espalhados lugares, os integrantes do conjunto desfrutavam de um soberbo jantar de Natal, onde todos comemoravam a recente vitória na Mega-Sena: 22 milhões de reais.
O bilhete sorteado fora comprado por acaso, pedido especialmente por um dos filhos menores. Claro que o pai não acreditava em sorte... as chances de se ganhar na Mega-Sena sozinho ultrapassam a casa de 1 para 1.000.000 . Mas o pequeno insistira tanto, e com tanta veemência, que o tutor, a custo, cedera. O que eram 3 reais pra uma criança? O pai entregara o bilhete para o filho, que guardou-o cuidadosamente no bolso.
... Na noite que antecedia o Natal, passava na Televisão o resultado dos sorteios para os números do grande ganhador. Ninguém assistia ao programa... ninguém havia comprado um bilhete de Mega-Sena para se dar ao trabalho de perder precioso tempo para ver um sortudo filho-da-mãe lucrar milhões. Ninguém, a não ser a criança. Prostrada, hipnotizada na frente do comunicador, ela dominava todas as suas atenções e direcionava para o objeto a sua frente, esperando. Não sabia o que significava, mas tinha certeza de que era algo bom... papai explicara mais ou menos.
...
- Papai, nosso número saiu na televisão.
O pequeno que puxava a camisa do pai tinha uma expressão satisfeita e feliz.
- O quê?
- Nosso número, pai... saiu na televisão.
O adulto, a princípio, descreu, como qualquer outro faria. Dirigiu-se para a televisão, a tempo de escutar o apresentador falar:
- ... nome do sortudo é Ataídes Filho da Cunha, que sozinho acaba de ganhar 22 milhões de reais!
O grito não saiu. Os ouvidos não acreditaram. As pernas tremeram. Virou-se rapidamente para a mesa e viu a mulher, ainda fazendo o orçamento do mês...
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- UM BRINDE À SORTE!
Todos se levantaram, e ergueram suas taças e copos em direção ao alto, agradecendo silenciosamente à benção que tinham recebido.
A televisão jazia ligada, no momento em que mostrava a entrevista com Ataídes.
- ... morador da rua Liga Portuguesa, número 22, na cidade de Rio de Janeiro, esse feliz homem agora pode desfrutar de toda a mordomia que sonhara desde que nascera! 22 milhões de reais! - dizia o repórter.
- Foi meu filho que fez eu comprar o bilhete... se não fosse por ele, eu nem estaria aqui! - e a televisão emitiu o som da gostosa risada do ganhador da Mega-Sena.
Alguém na mesa ouviu a risada do parente no aparelho, e gritou para todos olharem.
Foi o pai que, sentado tranquilamente, falou primeiro:
- Finalmente, algo útil está passando na TV!
Bateu com a mão na maleta em que jaziam os 22 milhões de reais em dinheiro, na ponta da mesa. E todos riram, felizes.
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Cuidadosamente, fazendo todo o silêncio que podia, ele encaixou o silenciador na ponta da pistola, girando-o até o final. Era um trabalho como qualquer outro que fizera: matar, levar o que podia e fugir, sem deixar vestígios.
Sim, sabia que era arriscado... mas o que não era, hoje em dia? Tanto sua vítima quanto ele próprio estavam à mercê de qualquer coisa, e era dever de cada um se proteger de tudo e de todos.
Sua mullher comia na sala com o filho, o resto do feijão do dia anterior.
- Feliz Natal... - falou ele, beijando a testa de sua esposa, e saiu porta afora.
Não sabia quem atacaria nesta noite, mas não podia voltar de mãos vazias para casa... não aguentava ver seu filho recém-nascido berrar de fome. Apenas andava, esperando alguma idéia da Divina Providência que pudesse sanar a sua dúvida. O vento da noite batia feroz em sua face, gelado, cortante. Ele levantou a gola e continuou o seu trajeto para lugar nenhum.
Passou em frente à uma loja de eletro-eletrônicos, que exibia várias televisões sintonizadas no mesmo canal.
- Nesta reportagem exclusiva de nossa emissora, convidamos neste dia o sortudo ganhador da Mega-Sena! Sozinho! Atual morador da rua Liga Portuguesa, número 22, na cidade de Rio de Janeiro, esse feliz homem agora pode desfrutar de toda a mordomia que sonhara desde que nascera! 22 milhões de reais! - dizia o repórter.
- Foi meu filho que fez eu comprar o bilhete... se não fosse por ele, eu nem estaria aqui! Hahahaha!
O homem na televisão ria, com suas faces rosadas, expressando extrema felicidade e contentamento. O homem na frente da vitrine apenas observava.
- Finalmente, algo útil está passando na TV! - pensou o armado.
Ajustou a pistola no cinto, ajeitou o chapéu na cabeça e recontinuou a andar. Já tinha um rumo.
De longe apenas se viam os olhos do homem com as golas levantadas, que emitiam um estranho brilho...
Minoru