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Ir para Versão Original : Eleições 2004


Macbeth
04/08/2004, 14:11:08
Aí vai um ótimo artigo, escrito por um professor meu.

ARTIGO
Detesto eleições

Não seria possível procedimentos eleitorais mais condizentes com a finalidade da democracia, que é a liberdade, a igualdade e a fraternidade? É necessário repetir o circo das campanhas eleitorais americanas?

André Haguette

[31 Julho 18h38min 2004]


A maioria dos cearenses - sobretudo os homens - tem uma nítida paixão por dois esportes: o futebol e as eleições. Nos dias de jogo de futebol, a vida fica viçosa, tornando-se mais animada, mais colorida, mais coletiva pela formação das torcidas. Os carros e ônibus, repletos de torcedores cantando, gritando, ameaçando, se apressam com bandeiras nas janelas. Todos querem chegar logo à festa. Em época de eleição, parece que há um clássico de futebol por dia. Os muros sujos se enfeitam, as bandeiras se agitam nas esquinas, as conversas se animam, as torcidas vibram, os interesses se manifestam. É festa!

Eu sou diferente. Gosto de futebol, vôlei, basquete e tênis. Mas detesto eleições. O que é festa para muitos, para mim é poluição visual, sonora, econômica e ética. Época de eleição é, para mim, tempo de artimanha, de hipocrisia, de falsidade, de arranjos duvidosos, de invasão do espaço público por interesses privados, de abuso econômico, de descaracterização dos partidos, já bastante descaracterizados, de embelezamento artificial dos candidatos. Tudo é feito para enganar o olho dos eleitores; o que importa é a vitória.

Não que não haja candidatos e eleitos honestos, sinceros, dignos de governar. É que a estrutura circense de uma campanha eleitoral obriga essas pessoas a jogar o jogo, e afasta tantos outros com real vocação para a coisa pública. Neste jogo, a palavra perde seu significado. Todos se declaram honestos, democráticos, de ilibada reputação, ardorosos defensores da segurança, da saúde, da educação, com grande vontade política. Todos passam a se assemelhar, muitos desfigurados. Palavras, tudo não passa de palavras! Com isso a realidade desaparece ou é ocultada, a dura realidade de administrar enormes problemas econômicos e sociais com um erário vazio ou endividado e compromissos assumidos, muitos inconfessáveis.

Mesmo assim, sei que eleições são imprescindíveis e sou ardoroso defensor da democracia que implica eleições. Mas não seria possível inventar procedimentos eleitorais mais condizentes com a finalidade da democracia que é a liberdade, a igualdade e a fraternidade? É necessário repetir o circo das campanhas eleitorais americanas que se difunde no mundo dito democrático?

Mesmo assim, é impossível não notar que a qualidade dos prefeitos cearenses tem melhorado, isto é, um maior número de prefeitos adota uma nova maneira de fazer política e de administrar, um modo mais voltado para os reais interesses da maioria. Será isso resultado de uma maior perspicácia do eleitor? Creio que não. Está aparecendo uma nova classe política: hoje, os ricos do interior tendem a ser profissionais liberais, melhor preparados. Quanto aos vereadores, a coisa faz dor! Talvez a solução fosse voltar ao antigo sistema em que o vereador de municípios com menos de 200.000 habitantes não recebia salários. O cargo representava um serviço cívico.

Detesto eleições, embora elas sejam, repito, imprescindíveis. Mas tem de ser desse jeito?


André Haguette é sociólogo e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC)